sexta-feira, janeiro 06, 2006

A Foz Do Rio


Já noticiada em vários blogs e no próprio jornal "O Rio", eis que chega ao fim a sua publicação no ano IX, e com o bonito numero 189 (clique na imagem para aceder à ultima edição do "O Rio").
Passo a escrita a um e-mail chegado até nós, da autoria de Carlos Vardasca sobre este término anunciado:

*Como Se Liquida Um Jornal*

"É hoje inquestionável para a generalidade dos sectores de opinião do nosso concelho, de que o jornal “O RIO” era uma voz de referência que se foi afirmando ao longo dos seus oito anos de vida, abrindo as suas páginas a vastas sensibilidades. Era um jornal que aos poucos se ia libertando das “algemas” que lhe haviam colocado inicialmente aqueles que pensavam vir a fazer dele sua propriedade.
Era um jornal que (em minha opinião) apesar de em períodos eleitorais se colar por vezes com algum excesso ao poder autárquico instituído, por razões que estavam relacionadas com a sua própria sobrevivência associada à dependência económica que lhe estava inerente, era no entanto uma voz que gradualmente se ia recusando a ser mais um “órgão oficial” abrindo-se à sociedade em permanente mudança, rejeitando a “mera cassete ideológica” que prolifera na maioria dos jornais regionais ditos independentes.
Foi nesta necessidade gradual de liberdade e de se prestar a servir as pessoas e não as lógicas instituídas por decreto partidário, que fizeram do jornal “O RIO” mais uma das suas vítimas, deixando o concelho mais pobre em termos informativos, deixando a sua população prisioneira de um certo jornalismo mercantilista e das publicações propagandísticas municipais, cujas páginas, prenhes de galerias de fotos anunciando algo que sabem não poder concretizar, mais parecem os folhetos que os exércitos de distribuidores de publicidade nos despejam nas nossas caixas de correio na tentativa de atulharam a nossa veia consumista.
Pois é, em minha opinião, o jornal “O RIO” chegou à sua foz empurrado numa corrente que se adivinhava tempestuosa, e que obedece a uma lógica de anulação das diferenças, dado que ultimamente as suas páginas já eram pinceladas de artigos de opinião muito diversificados e que nada tinham a ver com a corrente oficial que lhe deu corpo, assistindo-se no entanto, em paralelo, à ausência de alguma publicidade que os diversos órgãos autárquicos costumavam polvilhar as suas páginas, canalizando-a agora para outros pasquins que ainda vão “obedecendo à voz do dono”
Por isso, e como se obedecessem a um toque de retirada e impossibilitados intelectualmente de acompanharem a evolução do jornal com a produção de artigos que primassem pela isenção e qualidade, os “escribas do regime” foram abandonando as páginas do jornal “O RIO”, assim como alguma publicidade emanada das instituições autárquicas e de outras empresas a elas associadas (que é o sustento de qualquer publicação) que foi sendo cada vez mais rara, que preferiram “engrossar as fileiras” de outras publicações que reservam pouco espaço ao debate de ideias e à livre expressão das opiniões, e que dedicam a maioria das restantes páginas à lógica mercantilista, mais parecendo um vulgar panfleto publicitário.
A isso não é alheio o lamento de Brito Apolónia quando diz que “nem todos os meses são de natal”, numa alusão à falta de alguma publicidade (que considero intencional) que foi sentindo ao logo dos anos, de nada valendo algum “favor jornalístico” pontual a que se sujeitava, o seu esforço de oito anos de “carolice”, a prestação dos diversos colaboradores que tentaram fizer das suas páginas um jornal mais plural, e de alguma publicidade mais fiel, que não evitaram que o RIO chegasse à foz onde parece ter-se afogado numa morte idêntica às que “cortam a raiz ao pensamento”.
Em nome das pessoas que ao longo de oito anos se habituaram quinzenalmente a folhear as páginas do jornal “O RIO”, por respeito pela diversidade de opiniões que nele foram emergindo e por respeito pela cidadania que ajudou a cimentar contra um certo jornalismo de “pensamento militarizado”, espero que a interrupção da sua publicação não seja eterna, e que volte para que nele voltemos a exprimir a nossa indignação pelas desigualdades que se vão acentuando no país, que os poemas sobre a liberdade e as denúncias da fome no mundo voltem a encontrar o aconchego das suas páginas, e que as notícias da vida das Associações culturais do concelho voltem a encontrar nas suas páginas o espelho das suas realizações, e volte a ser eco daqueles que no nosso concelho não têm voz.
Sim, que “volte dessa foz onde desaguou e que venha remar contra a corrente” pois será sempre bem vindo, mas que volte assente num outro projecto onde os cidadãos anónimos, os fazedores de opinião e a sociedade civil tenham nele uma intervenção, que não o deixe ficar prisioneiro das grilhetas do oportunismo serôdio que sucumbiu nos escombros do Muro de Berlim, assim como de alguma publicidade traiçoeira que lhe “retirou o tapete” e que lhe tem servido ironicamente de garrote ao longo dos oito anos da sua vida. Volte, volte também com alguma “carolice” (que também é necessária) mas assente num corpo redactorial sólido onde cada um tenha as suas tarefas bem definidas e as responsabilidades distribuídas.
Por minha parte, que fui entre tantos um dos seus colaboradores com alguma regularidade, desejo que volte o mais depressa que poder, pois pode continuar a contar sempre comigo dentro daquilo que sei, e do que tenho para dar, que são, através dos meus escritos, a denúncia da arrogância primária de quem se assume como dono do pensamento humano, e contra as arbitrariedades dos vários poderes que tentam amordaçar a vontade colectiva e individual dos cidadãos."



Carlos Vardasca
05 de Janeiro de 2006

2 comentários:

Anónimo disse...

Sou como um Rio
que vive só pra ti
correndo só para te ver...
Desaparecer!
Temos pena!
Sou SOlidário

Anónimo disse...

Não partilhando de algumas das formulações escritas pelo companheiro Verdasca, lamento o fim do Jornal O RIO. Paira uma sombra de derrota, sobre todos os utilizam a diversidade para melhor afirmar as sua convicções. É uma perca para este Concelho.