sábado, novembro 19, 2005

O Espelho não é Mágico

Ao ler o texto do SrºE.Prado Coelho, passou-me a ideia de tratar-se do seu último escrito, "um requiem por mea culpa". Concerteza que não será, apesar de se ter olhado ao espelho.

Recordo-me que em 1987 este senhor integrava a comitiva de convidados para a inauguração de um novo serviço de hemodiálise (que só funcionou após ano e meio)no hospital de São Bernardo em Setúbal.
Foi num Sábado pelas 10 horas. Aí juntaram-se os trabalhadores da IMA, IMPEREX, MEC.SETUBALENSE, BARREIROS, SOC.COOP.DE CONSERVAS e da ENTREPOSTO INDUSTRIAL, todos com os salários em atraso e a ameça do desemprego, por encerramento fraudulento das respectivas empresas. Aguardavam a chegada do 1ºministro.

Quando o SrºMário Soares chegou, os protestos engrossaram ofuscando os aplausos da comitiva convidada, baralharam a organização protocolar, destruiram o cenário mediático montado. Os convidados tensos e excitados, gesticulavam de danados na segurança do cordão policial. Os Sindicalistas foram impedidos de entregar o dossier que descrevia a lástima da situação laboral e social que então se vivia no Distrito. Porque ainda não existia "o direito à indignação", dois trabalhadores foram presos.

Infiltrado na comitiva das elites, um pouco antes de ser descoberto, ainda ouvi o azedado e já desbarrigado pelos gestos, Prado Coelho dizer: "- isto é inadmissível, comportam-se como se não estivessemos em democracia..."e ainda disse mais que já não consegui ouvir. Ainda hoje não percebi o significado daquele raivoso desabafo.

Ao longo dos anos o que retirei dos seus escritos - no seu estilo, sempre lá de cima, eivado de estereotipos, resvalando para a elevação ao erudito, até do disparate;- é a persistente sucessão de contradições, próprias de quem escreve ao sabor das conjunturas, no uso do seu estatuto elitista de fazedor de opinião.

Por tudo isto, o texto de Prado Coelho em post, só pode ter dois sentidos; ou uma postura autocritica(mea culpa)por nunca ter usado a clarividência de assumir-se sempre que o processo democrático foi atacado, quebrando-se sucessivamente a dinãmica colectiva e popular, lamentando agora a paralisia e estupidificação existentes; ou então, trata-se apenas de retórica humanista, desresponsabilizando as elites eleitas, detentoras do poder, diluindo-as no Povo, como se todos tivessem a mesma igualdade de oportunidades, os mesmos acessos.

Assim, parece-me que o recurso ao espelho, não passa de mais uma habilidade retórica, em que a humildade invocada apenas esconde a altura em que sempre se coloca.

Como escreveu o Tiburso - Está bem abelha!...

1 comentário:

Anónimo disse...

O positivo no ser humano é quando ele tem a capacidade de mudar e regenerar-se, não ser sempre igual. Só os tolos não mudam!
A mudança é o que nos faz avançar, traçar novos caminhos, mesmo que erremos e voltemos ao ponto de partida. Se então é mea-culpa, saúde-se! Por outro lado, a minha opinião, e só a minha é a de que somos nós, pensando nesse colectivo popular e dinâmico que teremos a capacidade para alterar certas coisas, normas, elites no poder. Somos nós, é o povo, ou se quiseres chamar mais modernamente, a sociedade civil. Cabe a esta, às associações, aos grupos de trabalhadores, às colectividades culturais, às Universidades, às Fundações, a grupos informais de cidadãos por uma causa, são todos estes em suma, que podem mudar a face deste país. Mudar no sentido em que uma opinião colectiva tem muito mais força e valor, é mais pungente! Por exemplo: - Para que quero eu fazer espectáculos para 10 pessoas? Eu quero é 1000 ou mais! Quero passar uma ideia, uma mensagem, um ponto de vista abrangente, que permita abanar, mexer connosco. Por exemplo, após o 25 de Abril, muitas colectividades faziam espectáculos de teatro, música, exposições, debates, havia um fervilhar de desejo por aprender as artes, a cultura, no sentido mais lato. E hoje, essas mesmas colectividades, que fazem? Não fazem! A quem cabia isso? não seria a nós? ao povo, a todos os que têm vontade de aprender, construindo e criando algo novo? Então, eu acho que é o portuguesinho, que se fecha em casa a ver TV, no café a ver a bola, a sonhar com o euromilhões, a passear no hipermercado, a perder horas com futilidades que é o grande prejudicado, porque não falta espaço para mostrarmos que podemos ter uma voz, uma força colectiva. Mas nós emburguesámo-nos! E dantes, não havia dinheiro, fazia-se por carolice! Hoje não, quer-se sempre dinheiro, só se trabalha com isso, só queremos condições mínimas e deixamo-nos ficar atávicos perante o mundo que nos rodeia. Se não nos mexermos, não é nem sequer o vizinho quem vai preocupar-se connosco, quanto mais os políticos. Se já sabemos isso, cabe então a nós mexer os cordéis para acordar este país e pôr os politicos de olhos e orelhas atentas! Mais uma vez, e tu disseste-o, cabe a esta massa dinâmica e popular agir, em colectivo, para mudar o colectivo!
Abraço.