Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Vardasca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Vardasca. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Um cerco à liberdade

Via O Rio

Carlos VardascaOs habitantes de Vila Maior há muito que andavam inquietos, principalmente a população mais esclarecida ou mais idosa que já não se revia naquilo que diziam ser o seu “Partido”, uma vez que diziam que as novas gerações que dele se tinham apoderado em Vila Maior, já não eram dignas das suas tradições de luta e de preocupação para com os mais desfavorecidos, que fora em tempos uma das suas características. Dizia-se na Vila que andavam muito engravatados, que ostentavam sinais exteriores de riqueza muito estranhos e que já não tinham como amigos os seus companheiros de escola nem os velhos fragateiros e corticeiros, mas os industriais e os construtores civis da região, colocando-se ao lado destes contra as populações que foram vendo as suas terras desvalorizadas em seu favor, sendo estas obrigadas a vendê-las por uma ninharia para depois aqueles as trocarem por milhões.

O descontentamento começou a ser mais evidente quando um movimento de agricultores de Vila Maior se insurgiu contra a tentativa de desvalorização das suas terras, e à proibição de construírem nas mesmas pequenas habitações para os seus familiares, enquanto tudo era permitido a alguns construtores civis que posteriormente se apoderavam delas então valorizadas, e nelas construíam através de protocolos firmados com o presidente da câmara de Vila Maior a troco de outros favores.

A tudo isto não ficou alheio o jornal local, “O RIACHO”, que começou a questionar determinados comportamentos daqueles que se diziam representantes do povo de Vila Maior mas que o apunhalavam pelas costas, dando voz ao descontentamento das populações e às restantes forças vivas da terra, que se insurgiam nas suas páginas contra a especulação imobiliária e à tentativa de enriquecimento de alguns daqueles que ajudaram a eleger, através de benefícios concedidos aos seus amigos da área do betão.

Com alguns dos seus militantes a sentirem-se incomodados com as irregularidades cometidas pelos seus dirigentes; com as populações de Vila Maior incluindo a rural em constante protesto e o jornal local a insurgir-se contra aquelas práticas que em nada dignificavam as tradições de luta daquelas gentes, o “Partido”, que geria os destinos daquela Câmara decidiu tomar medidas e pôr cobro a todo aquele descontentamento, sugerindo alguém, numa das suas reuniões restritas e longe da maioria dos militantes, (que decerto iriam reprovar aquelas práticas) que se recorresse aos mesmos métodos que já vinha sendo hábito utilizar quando se tratava de eliminar ou humilhar alguém que passasse a discordar das suas orientações oficiais.

Tudo teria que ser efectuado de uma forma discreta, para que os seus mentores pudessem continuar a passear-se por Vila Maior (cumprimentando as suas populações somente em dias festivos) como se nada tivessem a ver com o que iria ocorrer.
A solução passaria por isolar o líder da contestação rural assim como silenciar o jornal “O RIACHO”, que diziam agora (depois de lhes ter sido fiel durante uns bons tempos) ser o jornal oficial da contestação às negociatas do “Partido” e da Câmara de Vila Maior com os especuladores imobiliários, e de protesto contra aqueles que lhes faziam o frente.

Quanto ao líder da contestação rural, o “Partido” deu orientações aos seus escribas para criarem na blogosfera um site onde aquele cidadão seria ofendido e a sua vida pessoal enxovalhada, de forma a desencorajá-lo a continuar a denunciar os atropelos e a violação dos mais elementares direitos de cidadania, de que se fazia notícia em Vila Maior.

Quanto ao jornal local, a coisa teria que ser tratada de uma forma muito mais discreta. Sabendo o Presidente da Câmara de Vila Maior das dificuldades em manter um jornal com aquelas características e sabendo de algumas das formas de financiamento do mesmo, ordenou, em primeiro lugar e aproveitando-se das estruturas partidárias que controlava, que todos os militantes do seu “Partido” deixassem de comprar o “RIACHO” e de enviar para lá os seus artigos de opinião, e que todos os organismos dependentes daquela câmara reduzissem (de forma gradual, para não dar muito nas vistas) o envio de publicidade institucional para as suas páginas.

Por outro lado, e sabendo que determinado construtor e um empresário apoiavam financeiramente o “O RIACHO” mas que ao mesmo tempo necessitavam dos seus favores, o presidente da Câmara de Vila Maior convidou-os para um almoço informal, onde lhes propôs, a dado passo, que, se quisessem continuar a beneficiar dos seus favores teriam que cancelar todos os apoios financeiros ao “RIACHO”, lembrando ao primeiro que, por ser um pequeno construtor e por os seus terrenos se situarem na jurisdição da sua Câmara, que a sua futura urbanização iria depender da sua assinatura, mas também da concretização da proposta que lhe acabava de fazer.

Como se não bastasse este atentado à liberdade de informação, o “Partido” de Vila Maior encomendou aos blogueiros por si fabricados que encetassem uma companha de difamação contra o director de o “RIACHO”, denegrindo a sua imagem que dantes veneravam, só porque o mesmo fez daquele jornal um espaço de liberdade, pluralidade e de isenção ao que aqueles há muito não estavam habituados.

E é assim que, passados que são alguns anos da sua existência, vemos mais uma vez ser colocada uma mordaça à democracia e montado um cerco à liberdade de expressão, com o anunciado fim de o “RIACHO”, desencadeada por aqueles que também já a sofreram mas que parece dela já se terem esquecido.

segunda-feira, julho 16, 2007

O Erro do Lobo

E-mail recebido na nossa caixa de correio onde uma fábula se assemelha à realidade.

«Certa vez, numa localidade distante, e onde existia uma aparente acalmia nas vastas pastagens, apareceu um lobo (chefe de uma alcateia que dominava vastas cercanias) a quem pareceu a melhor altura para investir contra os estábulos onde viviam ovelhas que era hábito ali consumir pasto, não se apercebendo estas das suas intenções, apesar de há muito se sentirem incomodadas com o seu uivar.
Socorrendo-se da manha que tinha e da influência que sobre ele exerciam as Alcateias Construtoras de Tocas que já vinham progredindo na sua construção nas redondezas, aquele lobo avançou silenciosamente montanha abaixo, pensando que, com o apoio da sua alcateia e com a ajuda de outras que decerto lhe iriam reivindicar um pedaço do saque, conseguiria o seu intento, ou seja; dominar toda a região e, posteriormente, entregar as grandes parcelas daquilo que considerava seu território às alcateias especializadas em construção de tocas (num mero acto de vassalagem) desde que estas lhe assegurassem o seu sustento assim como aos outros lobos da escala hierárquica da sua alcateia, garantindo-lhes, para o resto das suas vidas (mesmo depois de abandonarem aquela vida nómada), uma existência mais desafogada e sem dificuldades.
As ovelhas há muito que andavam inquietas, parecendo-lhes que algo muito estranho estaria para acontecer: — Uma coisa sabiam elas; naquilo que anteriormente tinham sido grandes áreas de pastagem, iriam agora ficar repletas de tocas, e os lobos ficariam decerto cada vez mais gordos e o seu território de caça cada vez mais vasto, ao mesmo tempo que as áreas de pastagem diminuíam, criando algumas dificuldades de sobrevivência às pobres ovelhas. Sentindo-se ameaçadas, decidiram juntar-se a outros rebanhos das redondezas, com o objectivo de impressionar o lobo (e sua alcateia) com a dimensão do seu rebanho, persuadindo-o de descer ao vale e tentar de novo tomar as suas pastagens e transformá-las num grande aglomerado de tocas.
Há muito que o lobo (e sua alcateia) vinha concedendo à sua passagem, pequenos territórios a troco de alguns benefícios. Benefícios esses, que passavam pelo consentimento às Alcateias Construtoras de Tocas, a autorização de construírem cada vez mais em terrenos que anteriormente lhes estavam vedados, a troco da construção de outras, mas muito sumptuosas para os seus membros e em terrenos retirados às ovelhas, assim como de outros benefícios que permitiriam ao lobo dominante e sua alcateia uma vida faustosa, sempre de barriga cheia, e sem problemas na renovação dos seus apetites devoradores.
Certo dia, indignadas, as ovelhas decidiram, já com um rebanho bastante numeroso, começar a bramir em coro, insurgindo-se contra aquela investida que consideravam uma afronta ao seu bem-estar e à liberdade de circulação na sua área de pastoreio, fazendo ver ao lobo (e sua alcateia) que elas não permitiriam ser escorraçadas dos seus terrenos para que estes fossem entregues às Alcateias Construtoras de Tocas. Num amplo movimento que impressionou todo o vale e as pastagens mais próximas, as ovelhas fizeram ouvir o seu ensurdecedor bramido na tentativa de afugentar o lobo (e sua alcateia) para o interior das montanhas de onde tinha vindo, e deixarem-nas, coitadas, no seu pasto e viverem a tranquilidade de que se diziam merecedoras.
Assim não entendeu o lobo (e sua alcateia) e, no Verão, em pleno mês de Julho, e depois de ter estado refugiado por uns tempos nas montanhas, voltou a descer ao vale, usando do seu já tradicional autoritarismo que lhe garantia o domínio da alcateia e, escudando-se (confundindo poder com razão) na sua força e na subserviência da mesma (com o objectivo de continuar a beneficiar outras a quem prometera autorização para a construção de novas tocas no vale), desferiu (mas desta vez já com algumas limitações e sem legitimidade para o fazer) um intenso ataque, aplicando um rude golpe nas expectativas das ovelhas, que (silenciadas) assistiram mais uma vez e com alguma indignação, à consumação e delimitação das suas áreas de pastoreio em benefício dos seus predadores”.
Moral da história: Concluiu o avô à neta antes que esta adormecesse.
— O erro do lobo foi pensar que por ser um predador feroz, que só tem que se preocupar com o seu bem-estar e da sua alcateia, ignorando os mais fracos ao não querer ouvir as ovelhas e os seus lamentos, e aproveitar-se das suas fragilidades para garantir, para si e para os seus, um resto de vida mais tranquila e com amplas áreas de caça em abundância.
— O lobo a sua alcateia, ao ignorarem as humildes ovelhas beneficiando as Alcateias Construtoras de Tocas (o que lhes vai ser fatal para o seu futuro mas, que importa! (dizem) desde que lhes seja benéfico) só revela desconhecer que a aparente fragilidade dos mais fracos se transforma sempre num mar de razão, que acabará por inundar e corroer a consciência, denunciar, humilhar e vencer a arrogância dos que pretensamente pensam ser os mais fortes.»